terça-feira, 27 de julho de 2010

Entre o mar e tortas de limão

Já era de manhã. Cedo demais, tarde demais.. o que importava? As coisas iam e voltavam, iam e voltavam - ondas. O ritmo constante-inconstante seriam talvez as tempestades de areia que bagunçavam nossos cabelos. Mais tarde era a praia. Escutei-a dizendo: pense numa torta de limão. E assim se fez. Todos aqueles sentimentos contidos traduziam-se apenas numa simples torta de limão. Meu eu consciente estava sendo controlado pelo meu inconsciente e tudo se resumia em... Já chega. A verdade é que eu estava mais preocupada em sentir como o barulho do mar e os grãos de areia que roçavam meus pés embalavam todos os meus sentimentos confusos do que em realmente tentar entender suas palavras. O que se fazia era a tempestade de areia - ritmo inconstante. O que se fazia era mais uma vez eu - ser incompreendido buscando compreender. O que se fazia era a dúvida, a angústia, a busca incontrolável de algo que nunca iria chegar. Eu não entendia, mas aceitava. Acabou; agora espere. As coisas aos poucos vão se resolver, para depois tudo recomeçar de novo e de novo e de novo. Era assim que deveria ser mesmo, a gente envelhecia, mas ainda construía castelos de areia.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Curto diálogo com uma mosca

Certa noite estava eu, distraidamente tomando banho, quando reparo em um pontinho preto que nunca tinha visto antes na minha parede. Devido à minha miopia, não percebi de imediato, mas, ao me aproximar um pouco mais, vi o que era o tal do pontinho: uma mosquinha repugnante me encarava.

Uma onda de repulsa percorreu pelo meu corpo. Eu a encarei com desprezo e estava pronta para matá-la quando, de repente, ouço uma vozinha fina vinda da parede:

- Você não tem medo de que em outras vidas a gente possa se encontrar novamente e eu me vingue de você?

- Hãn? Do que você está falando? Quer dizer: você está falando?!

- Preste atenção - ela respondeu, evidentemente ignorando meu espanto. - Imagine que, sei lá, eu reencarne como um psicopata e volte aqui para vingar minha morte..

Que engraçado, eu tinha uma mosca na minha parede e ela tentava me intimidar.

- Mosca, mosquinha... eu não acredito em reencarnação - respondi, rindo sarcasticamente.

Ela retrucou:

- Que seja então, aposto que quando você morrer, Deus vai te castigar. Ele foi bem claro quando mandou colocar nos dez mandamentos: "Não matarás.". Aí enquanto eu estiver feliz pulando sobre nuvens no Paraíso, você estará sofrendo no Inferno por ter pecado.

Cada vez essa conversa tornava-se mais hilária. Agora eu tinha uma mosca que, além de estar na minha parede, interrompendo meu banho e procurando me intimidar, ainda tentava falar sobre Deus. Eu repliquei:

- Para sua informação, mosca, eu sou atéia, viu?

Ela me encarou por alguns segundos.

- Humanos, sempre achando que sabem de tudo... - debochou - Tudo bem, então vá em frente e me mate.

- Agora você não se importa mais com a morte? - perguntei.

- Por que eu me importaria? - ela respondeu pacificamente - Afinal, sou uma mosca. Minha vida baseia-se em voar tolamente de uma parede para outra, de uma para outra, de uma para outra...

- Mosca.. - eu a interrompi - Mosca, eu entendi. Mas você não teme que, após a morte, não haja nada, nem sequer suas feias asas cinza para que você possa voar?

- Sinceramente, não. - ela me olhou pensativa - Eu sou somente uma mosca, um animal irracional, lembra?

- Ah é? Então se você é um animal irracional eu estou conversando com quem?

- Acho que sozinha. - tinha os olhos tristes - sinto muito.

Quando me dei conta da minha insanidade, não pensei duas vezes, peguei a saboneteira e esmaguei aquela criaturinha sem dó contra a parede. Posso até ser insana, mas não vou suportar que moscas tenham compaixão por mim. Como odeio moscas...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Em busca de algo maior

Enquanto a estrada parecia interminável, o vidro embaçado embalava meus pensamentos e, pacificamente, parecia acolhê-los. Silenciosa, eu o agradecia, pois já me encontrava demasiadamente exausta deles. Meus pensamentos não pareciam preocupar-se nem um pouco com minha saúde e, quando os dispensei, rapidamente partiram, buscando transformar-se em minúsculas gotículas de chuva e voar em círculos com o vento, procurando descansar sobre a pele fria de um velho senhor que passava pedalando sua bicicleta. Meus olhos intrigados pareciam divertir-se muito mais com as árvores de folhas vermelhas do que preocupar-se em perdê-los em virtude de uma inesperada tempestade. De repente, um cão passou correndo; seus longos pelos aqueceram todo o meu pensamento-chuva e eu sorri, desejando mais que tudo ser como aquele simples animal. Talvez ele sentisse fome, é bem verdade, mas eu estava certa de que com o frio ele já havia se acostumado. Para mim, ele parecia extasiante e... livre. Naquele momento, me compreendi. Atrás do atrás do pensamento, ocultava-se a necessidade de viver - livre. Como era teimoso esse tal desejo de liberdade! O dia em que, sem ser convidado, decidia aparecer, demorava tanto a ir embora. Deu-se, então, com mais intensidade quando meus olhos passaram das árvores vermelhas ao enorme vale que se abria bem abaixo de nós. O vento me provocava e, naquele instante, percebi que ele estava intrinsecamente ligado com a liberdade. Sussurrava, pedindo-me para sair e dançar. Pobre vento! Não percebia que isso me era impossível. Com a dança, viria a morte e, certamente, não era isso que eu buscava. Buscava somente aquilo que, dia a dia, me restringiam: meu livre arbítrio. Em certa aula de filosofia, aprendi que, para pensadores medievais, de livre ele não tinha nada. Porém, eu sabia que ele existia, pois me chamava, me chamava desesperadamente. Suplicava para que eu o encontrasse. Mas eu estava longe. O sonho estava chegando ao final, a chuva, aos poucos, deixava de cair e, novamente, o sol aparecia. Então, meus pensamentos retornaram, um a um, para a minha cabeça. Cedo demais, voltei a tornar-me um protótipo de mim.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Tudo estava escuro e turvo. Havia música preenchendo todo o espaço com um ritmo constante. Variavam-se os acordes de guitarra, isto é certo, mas os ouvidos habituados descansavam de prestar atenção. Gargalhadas altas, exageradas, muitas. Essas brincavam de colorir o espaço com variados tons de cor de rosa. A sua risada obviamente era a mais chamativa e parecia provocar-me, ludibriando a minha com evidência malícia. Estávamos todos nós ali, banhados de álcool e êxtase. Só um dos meus eus parecia compreender, os outros aceitavam passivos, demasiadamente embriagados, talvez. Jamais, aos meus olhos, você teria ostentado tamanha perfeição, exceto, porém, àquele dia em que caminhávamos, a sós, pela larga avenida. As primeiras vezes sempre ficam guardadas na nossa memória como as mais surpreendentes. Aquele dia, lembro-me claramente, o vento gelado bagunçava meus cabelos e sua extrema beleza peculiar cegava-me os olhos, foi uma primeira vez. Foi esta que me fez duvidar de tudo o que eu era ou havia sido, confundiu aonde antes reinava a ordem, fez eu ganhar novos olhos, me descobrir mais de mim. Éramos loucos e queimávamos nossos vazios com a bebida. Era perigoso estar à mercê de nossos desejos mais íntimos e sensações, envolvidos no agora, no real. Já não havia mais tanto espaço para os sonhos. Ingênuos, ríamos de nós mesmos e usávamos dos mais antigos jogos para nos distrair. Fosse verdade ou só fruto da minha imaginação, você parecia me provocar. De repente, nos encontrávamos perto demais, sua face roçando a minha, seu riso perto demais dos meus ouvidos, suas mãos me tocando. Cada toque seu era como consumir uma droga altamente estimulante. O mundo real havia ficado tão distante, a música há muito deixava de existir, as outras gargalhadas silenciavam-se pouco a pouco. O ambiente agora era um grande borrão negro e você era o único ser que permanecia, nítido, real. Eu te puxei pela mão. Nos primeiros instantes você pareceu hesitar, depois me seguiu, cego. Para onde eu estava indo? Não sabia. Uma única réstia de consciência piscava fraca, longe, mas eu podia enxergar bem o que ela dizia: longe dos olhares dos outros. E caminhávamos sérios, já não havia mais risadas. Você compreendia que estávamos tomados pelo desejo de sentir. Abri uma porta, estava escuro como o breu. Os outros, embriagados, nem notaram nossa ausência. Entramos e, naquele instante, qualquer destino que um dia fora traçado para mim, mudou drasticamente.


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Ps: Influências negativas de Álvares de Azevedo e uma tarde sem nada para fazer.

sábado, 24 de abril de 2010

Aos meus iguais, minhas lágrimas

Por que matam os peixes?
Na angústia do nada – eu sinto.
Sinto seu cheiro pútrido de coisa morta que não quer morrer.
Seus corpinhos atirados na carcaça de um barco qualquer, onde homens trabalham,
Indiferentes.
Na desesperança de meus olhos úmidos, há o ódio daqueles que suas vidas privaram.
Com que direito?
Com que direito tiro-lhes a vida para tirar-me a fome?
Silenciosos, os peixes não sobrevivem da minha piedade.
Entre seus iguais, fluem e vivem da ausência.
Eles não sabem,
mas ainda posso sentir o cheiro de suas entranhas derretendo em óleo quente.

O mar

Em certo navio velejava um velho marinheiro. Bigodudo e teimoso, jamais dispensava seu chapeuzinho azul e suas canções tristonhas. Vivia só, à mercê do mar. De vez em quando, perdia-se em lembranças terrenas. Boas sim, mas que enquanto duraram não o haviam satisfeito. Quando mais jovem, ao descobrir o mar, decidiu que seria este seu único destino. Sua família insistia –“Fique conosco” e sua irmãzinha de olhos chorosos suplicava – “Seja racional irmão, que vida você levará perdido, sozinho, em alto mar?”. Sonhador, ele não os dava ouvidos, o mar já o havia cegado, seria este seu caminho. Que pudesse ter mudado de idéia, escolhido outro destino, mas não, pois sabia que, assim feito, mais tarde arrependeria-se. Um tempo depois, tomou sua decisão. Levando seus poucos pertences comprou um pequeno barco e, assim, iniciou sua jornada. Por duas vezes, em conseqüência de uma forte tempestade, foi lançado de volta a terra, contudo, retornou ao mar. Por duas vezes perguntou-se se o destino não estaria tentando destruí-lo aos poucos ou se, de fato, isso não passasse de um aviso de sua família. O marinheiro solitário perguntava-se – “O que o levava a tomar as decisões que tomava? Porque não teria escolhido uma vida menos arriscada?” Ele não sabia, mas não achava que não saber implicava em desistir. Talvez fosse só um marinheiro tolo a assobiar músicas tristonhas. Um tolo à mercê do mar.


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Para Stephanie, que me ensinou a pensar na vida metaforicamente <3

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Drogas

Um vento gelado batia em seus cabelos longos e suas roupas certamente tiradas de uma revista de moda dos anos 80. Os pensamentos vagavam em sua mente como bolhas, em uma fração de segundos estouravam umas e criavam-se outras logo em seguida. Como num filme rodando rápido, rápido demais, ela balançava seus cabelos à medida que a música tocava. Tocava dentro de si, cada vez mais alta. Tão alta que ela sentia como se seu cérebro fosse explodir a qualquer momento. Diversos instrumentos gemiam e arranhavam e, ao fundo, uma repetitiva e incansável batida eletrônica. Sua mente girava e cada parte do seu corpo tremia, em uma mistura completamente divergente de medo, êxtase e depressão. Após inabaláveis segundos que mais pareceram horas, ela percebeu seu real desejo. Necessitava gritar, colocar para fora tudo. Toda aquela agonia que foram os últimos anos de sua vida. Queria vomitar a inútil esperança que lutava em permanecer dentro de si, como se, por todo aquele tempo, ela só a tivesse enganado. De repente, uma lágrima rolou. Seu rosto ardeu como fogo em brasa e, erroneamente satisfeita, ela percebeu que aquilo era o fim. A música parou. Então, como se tivesse levado um soco, todo seu corpo foi jogado ao chão. Caiu estatelada, no chão frio e úmido, porém, inesperadamente ele a acolheu, como se permitisse uma sucessão de lágrimas que afinal viriam. Pela primeira vez em oito meses, ela podia chorar novamente.